Archive for novembro, 2009


Claudinho e Bochecha

Claudinho e Bochecha…

Dificilmente escrevo dois “posts” em um período curto.
Isto não se dá por falta de tempo, tema ou interesse. Muito menos por alguma estratégia de manutenção deste espaço. A razão é muito mais simples.
Eu não escrevo como quem lança baldes para o coração de um profundo poço e de lá retira o alívio para sede. Não, pensando bem, há sim momentos em que esta imagem define minha experiência com a criação de um texto, mas normalmente não é assim.
Escrevo por não ter escolha. É um “transbordamento”.
Sou tomado por alguma imagem, palavra, som, história ou qualquer outra beleza da vida. E então meu espírito é visitado de tal forma pela erupção dos sentimentos que tudo o que sou entra em um estado de enlevo e já não consigo manter isso dentro de mim.
Esta experiência arrebatadora não é familiar, comum ou corriqueira. São como assombros inexplicáveis. São mistérios. Não os conheço pelo nome, logo não posso convocá-los ou convidá-los, eles apenas surgem e abraçam-me.
Eles gostam de me fazer esperar. Entre um encontro e outro a ponte que os liga é feita de tempo vagaroso.
Entretanto, hoje ouvi mãos sagradas batarem na porta. Aqueles passos alegres foram percebidos por meus ouvidos supresos e gratos. O mistério voltou e tocou-me.
Não, eu não estava ouvindo um sermão do pastor Éd Rene. Também não foi enquanto lia páginas de um livro espetacular. Melhor pararem de arriscar palpites, pois não acertarão.
Sentado no sofá laranja da sala aqui de casa, assisti o documentário sobre o Claudinho e Bochecha. Sim, isso mesmo! Foi assim que o mistério me visitou.
Recordei minha adolescência.
Como será que eu conseguia caminhar com aquelas calças tão largas? E eu realmente achava que camisetas gigantes ficavam bem em mim? Que saudade destas loucuras rs
Foi a época em que mais ouvi música. Durmia com o radinho ligado e gravava os programas de rádio em fitas para poder escutar novamente os hits que mexiam comigo.
Era um tempo em que sonhos explodiam como fogos em minha alma. Não havia perigos que me impedissem de tentar mais uma vez.
E a timidez?
Me lembro de uma vez em que arrumei um óculos de sol que logo passou a fazer parte do meu figurino “moderno” rs. Tomei um banho demorado. Passei loção pós barba, mesmo sem ter feito a barba, porque eu não tinha barba rs. Espirrei litros do perfume Biografia do meu pai no pescoço e debaixo do braço (ardeu rs). E segui meu caminho em direção ao palco das minhas maiores emoções – a escola Armando Cridey Righetti.
Estava preparado para conquistar. Imaginava o que aconteceria em todos os lugares por onde eu passasse.
As garotas parariam de conversar e, com os olhos reluzentes, comentariam sobre o garoto moreninho da rua da bicicletaria. As turminhas se desfariam apenas para me cumprimentar. Os maiorais iriam me chamar para fazer parte do time principal da escola e eu iria escolher o número da minha camiseta. Eu quase podia ouvir a arquibancada gritando – “Thiaquinho! Thiaguinho! Thiaguinho!”
Mas quando dobrei a esquina o medo me fez tirar os óculos e apenas aceitar que eu era somente um aluno da quinta série, se achando adulto porque agora estudaria das 15:00 ás 19:00 horas, ou seja, no mesmo horário das sextas, sétimas e oitavas e que tinha muito receio de não fazer novos amigos e de deixar meu caminho ser uma linha tão fina que o mais suave sopro da vida apagasse minha desengonçada trilha.
Quanta coisa marcante coube na minha adolescência!
Em um dos muitos festivais escolares, eu e meu amigo césinha nos tornamos a dupla Claudinho e Bochecha. Eu era o Bochecha rs
Coloquei boininha, ensaiei os passos e treinei bem a dancinha engraçada rs O som rolava e a gente fazia de conta que o mundo tinha parado para nos ver. Como a gente queria ser notado, querido e aplaudido.
E quando penso na morte do claudinho, penso um pouco na minha morte.
Não a morte definitiva. Não aquela que me impedirá de contar mais uma piada sem graça ou de trancar novamente minha mãe no quarto e só jogar a chave pela janela depois dela rir e pedir muito para sair de lá.
Mas a morte das fases.
Já não sou mais adolescente. Este tempo escorreu pelos meus dedos e não sobrou nenhum pouquinho desta areia cheia de força. E olha que cheguei a procurar até nos cantinhos das unhas.
Já não sinto as mesmas inseguranças enquanto refaço o caminho de minha casa até a escola. Já não há mais as conversas sem pé nem cabeça no portão azul da entrada do colégio. Já não tinjo o cabelo de azul e não tenho mais vontade de usar um brinco de pressão rs. Já não lavo o rosto com pressa para pegar a bola da penalti debaixo da cama do meu irmão para ficar chutando-a no portão. E não pergunto mais para a coordenadora Cecília – “quando vai ter outra excursão para o Sesc itaquera? rsrs”
Mas quando escuto Claudinho e Bochecha sinto o passado despertar e bocejar alto no meu ouvido.
Algo muito forte me arremessa para tão alto e tão longe que sobrevôo minha própria história e lá de cima consigo me ver abrindo o portão de casa, com mais sonhos no coração do que pelos no rosto, segurando minha bolsa nova nas mãos e com os óculos escuros escondendo meus olhos medrosos.
Sei que muitas das canções destes funkeiros divertidos não são profundas, poéticas ou sagradas. Algumas até destoam do que cremos e queremos viver. Mas a verdade é que o mistério tocou-me. Despertou minha vontade de rir com aquela leveza de moleque.
Eu chorei de emoção e orei a Deus.
Vivamos uma vida de amor. “só love, só love.”…

Sei que escrevi muito, mas agradeço aos que leram até o final, ou até mesmo aos que resistiram até o meio do caminho. Obrigado!

Thiago Grulha

Te amo JESUS!!

Troquei o canal

Troquei o canal…

Não é sempre que caminho assim.
Raramente abro trilhas no silêncio sem ter os olhos atentos a um mapa. Firmo os pés no chão e ainda nos primeiros passos sei exatamente onde quero chegar, mesmo que não possa, atencipadamente, conhecer todo o percurso a realizar.
Mas enquanto escuto o televisor ainda ligado na sala, sinto-me convidado aventurar-me por vielas, ruas, estradas e rumos que desconheço. Tenho vontade de virar a esquina e aumentar o ritmo da caminhada acreditando que o objetivo não é chegar a algum lugar, mas compartilhar o medo de me perder no meio da multidão que se esbarra. 
Receio não ter a ginga certa, sabe?  Temo que descubram que não tenho o jeitão descolado de movimentar as pernas. A verdade é que não tenho um andar confiante.
Eu sei que este texto está meio confuso, me perdoe por isso.
Não há como ser diferente, mas prometo que tentarei me fazer entender.
Quando falo de caminhar sem destino, não estou falando de viver uma vida sem propósito. Não se trata de um pensamento tão macro.
Estou filosofando sobre a arte de escrever.
Quase sempre tenho uma experiência que desejo passar. Um caminho para apontar. Mesmo que não sejam inovadores ou profundos, eles estão sempre presentes.
Porém agora é diferente.
Quero apenas contar uma particularidade, sem saber dizer se há ou não algum ensino por trás disso.
Amo contar histórias. Minha cunhada costuma se divertir durante as minhas pregações porque sabe que algum segredo de família será revelado. Um tombo engraçado, uma mania, uma conversa, um sonho infantil, não importa, há sempre um sorriso escondido no passado feliz.
Mas normalmente conto histórias transformando-as em parábolas. Partilho histórias com a intenção de semear reflexões dirigidas. Entretanto, hoje é diferente.
Há pouco estava assistindo um filme. Absorto. Envolvido. Empolgado.
O enredo intrigante. Os diálogos inteligentes. As cenas emocionantes. O drama revelador. Tudo muito bom.
Mas quando as coisas começaram a ficar mais difíceis. Quando um dos mocinhos da história começa a ser injustiçado. Quando os planos bem elaborados deram errado, eu troquei de canal.
O filme acontecendo e meus olhos saltaram para um outro mundo vivo na tela.
Poderia ser qualquer coisa. Um anúncio. Um telejornal, ou até mesmo o Castelo Ratimbum (eu amava rs). Apenas não queria continuar angustiado. Queria interromper o fluxo de imagens que frustravam meu mundo cor de rosa (ou mundo azulzinho rs).
E no momento em que fiz isto fui invadido por muitas lembranças. Recordei diversas vezes em que fiz a mesma coisa. Simplesmente troquei de canal.
Não encarei a cena. Fechei os olhos ao caminhar trôpego do cansado. Não por desejar ignorar seu sofrimento, mas por não suportar compartilhá-lo com ele. Que vergonhoso reconhecer isso.
Sempre foi mais fácil trocar de canal, pois, depois de um tempo, era só apertar o controle novamente para voltar ao filme.
Tudo foi esclarescido. Havia um propósito para dor, para lágrima.
O vazio, deixado pelo filho que se foi, não está preenchido, mas as noites não são tão negras e uma música de esperança rega a vida com novos sonhos.
Troquei de canal quando o tímido era humilhado no corredor da universidade. Quando o esquisito foi maltratado pelo jogador principal do time de futebol americano. Quando a líder de torcida se preparava para derramar ponche na roupa da nerd que mudou o modelito e está tendo sua noite mais encantada, no baile de formatura. E o mais engraçado é que quando retornava ao canal, tudo estava resolvido e bem ajustado.
Não sei como isso pode ser aplicado para vida, sei apenas que, por muitas veze, troquei de canal.
No entanto, hoje consegui resistir.
Voltei atrás e assisti o filme por inteiro.
Entendi melhor as reconciliações, pois suportei assistir as rupturas. Festejei com mais intensidade o reencontro, pois testemunhei a dor lacinante da despedida forçada.
As vezes ajo assim na vida. Ao ver situações complexas e tensas busco trocar de canal. Evitar os confrontos necessários.
Quero aprender que não posso fugir da realidade da vida. Não posso esconder meu coração das tristezas, constrangimentos, desilusões, ou, de qualquer outro desencanto da existência. Tenho é que depositar minha confiança em Deus. Deixar com que ELE cuide de cada detalhe de minha jornada.
Só assim ELE poderá transformar pranto em dança.
Quem não aceita o pranto, jamais aprenderá a dançar com Deus.
Quem troca o canal perde as mais profundas lições da vida.

Espero que mesmo sem ter chegado a algum lugar, você tenha apreciado me acompanhar nesta caminhada.
Obrigado por ler o que sinto!

Thiago Grulha

Powered by WordPress.