Transformando mãos em pedras…

Não estava indisposto nem amuado. Não sentia dores de cabeça e meus pensamentos cochilavam em uma cabeça tranqüila e despreocupada. Entretanto escolhi passar grande parte do primeiro dia de 2010 em meu quarto.
Li um pouco, mas logo fui abraçado pelo lençol e preso ao conforto de minha cama.
Já eram mais de 19 horas quando, ao telefone, ouvi a voz apaixonada perguntando-me se realmente não iríamos nos ver para que nossos olhos brindassem a alegria de entrarmos em um novo ano com um mesmo compromisso ardendo em nosso coração e mantendo nossas mãos unidas.
A verdade é que chovia muito e, como os que me visitam com mais freqüência aqui no blog já sabem, eu não tenho carro. E como iríamos nos ver no sábado, caso o tempo não mudasse, não nos veríamos hoje.
No entanto, reconsiderei e depois de me levantar rapidamente, tomar um banho e trocar de roupas, dei início à jornada.
 Ali, sozinho e molhado, com o guarda-chuva florido da mamãe, eu aguardava o bote motorizado.
Meu corpo estremeceu e meu rosto ganhou um vibrante sorriso, era o transporte público chegando. Que alegria arrebatadora eu senti. Em breve eu estaria quentinho e protegido da chuva em direção a casa da gatinha.
Fui até a beirada da guia da calçada e acenei com o braço avisando ao estimado motorista que faria uso daquele grande veículo que ele tão bem conduzia.
Quis avisá-lo que ele teria a honra de levar um apaixonado até a razão de sua paixão. Que ele faria com que meu corpo, agora distante, pudesse dar um abraço naquela que me esperava com carinho e saudades. Mas me contive e apenas acenei.
Para minha surpresa o ônibus não parou. Será que minhas mãos não estavam no ângulo certo? Será que deveria ter acenado no movimento anti-horário? Será que ele não gostava de mim por causa do meu time ou do estilo do meu cabelo?
Não sei, só que ele não parou.
Minha reação foi hilária.
Senti muita raiva. E lancei minha mão no ônibus.
Calma, não fiz nenhum gesto obsceno. Mas olhei com uma certa indignação para aquele monte de ferro e vi minha mão se erguendo e se movimentando na direção do pára-brisa. 
Havia apenas vazio entre os meus dedos, mas mesmo assim estendi minhas mãos com a força dos rejeitados.
E tudo isto me fez pensar. E o pensamento me fez rir de mim mesmo.
Enquanto eu estava dentro de casa. Confortavelmente acolhido. Aquecido e respeitado. No controle do meu ir e vir. Na segurança do que me é familiar. Meu coração estava tranqüilo. Minhas idéias para este novo ano eram encantadoras e puras. Meu canto, agradecido. E a minha vontade de fazer diferença no mundo, era enorme.
Mas bastou atravessar a porta e colocar os pés na realidade da vida. Com suas incoerências e injustiças. Suas dores e confusões. Suas incertezas e maldades. Suas pressões e egoísmos. Que ao invés de oferecer graça, amor e misericórdia, quis que minhas mãos fossem pedras, para que eu pudesse demonstrar o meu poder de prejudicar os que me prejudicam.
Em segundos o monge se tornou líder de gangue.
Naquele momento quis ter poder para fazer alguma coisa. Para não deixar que meu sofrimento (que drama! rs) ficasse anônimo. Queria ter poder para agir e mostrar para todo mundo que ninguém me deixa para trás e isso fica barato.
Enquanto movia minhas mãos no ar deixava claro para o céu inteiro que gostaria de transformar minhas mãos em pedras.
Obviamente não jogaria nenhum objeto naquele ônibus. Havia pedras no chão e nem por isso me abaixei para usá-las como arma de ataque. Estou apenas filosofando.
O que estou dizendo é que se tivéssemos poder de transformar as mãos em pedras, já teríamos quebrado muitos lugares que nossas mãos não podiam alcançar.
Refleti que há instantes em que queremos (ou eu quero) transformar Deus em uma pedra. Queremos que Ele vá até onde não podemos ir e acabe com aqueles com quem não podemos acabar. Que ele traga dor ao coração daqueles que nos trouxeram dor. Que Ele tire as coisas que nós não conseguimos tirar daqueles que achamos que não merecem ter.
O evangelho precisa me transformar. Precisa mudar a íris de meus olhos e o rumo das minhas emoções e idéias. O evangelho precisa me ensinar a como reagir com esperança e gratidão diante das muitas facetas da existência.
Enquanto o Deus que criamos em nossa mente for apenas uma extensão de nós Ele não passará de uma pedra quebrando a janela de tudo aquilo que ignorou nosso gesto e nos deixou para trás.
Deus é santo e não ambicioso e materialista. Deus é bom e não vingativo e iracundo. Deus é generoso e não avarento e egoísta. Deus é justo e não parcial e interesseiro. Deus é pacífico e não violento e rixoso. Deus é paciente e não opressor e insensível. Deus é o “Eu sou” e não um ser sem auto-estima e vulnerável a qualquer oposição ou crítica.
Deus jamais poderá ser nossa extensão porque as coisas que gostaríamos que ELE fizesse, porque não conseguimos realizá-las, são coisas que para nós são importantes e urgentes, mas não passam de inutilidades e vaidades.
Muito mais do que poder, nós precisamos viver o amor.
Quando decidimos ser pessoas amáveis, a vida não é obrigada a fazer com que isso seja fácil para nós. A nossa decisão de amar não impedirá que o mundo continue um caos. Mas se buscarmos honrar esta decisão, talvez, antes de dormir, ao invés de pedir que Deus transforme tuas mãos em pedra, você pedirá que ELE transforme tuas tristezas, feridas, iras e mágoas em orações. E ao invés de ferir quem te feriu, você irá interceder por ele e perceberá que esta será tua própria cura.
Gostaria de continuar escrevendo, mas vou ali orar por um motorista de ônibus da linha Metrô Penha.

Aos que leram até o fim, deixo meu obrigado sincero. Obrigado por me incentivarem a continuar esta linda viagem que é escrever.

Thiago Grulha