Aos poucos tive que aceitar a verdade sobre mim. Eu sou um saudosista crônico. Sou uma abelha sonhadora em busca do mel da saudade em todas as flores que encontro em meus vôos.
Alimento-me de lembranças. Aqueço-me em fogueiras que não resistiram ao sopro do tempo, mas que mesmo apagadas na existência, ardem constantemente neste meu coração que não respeita calendários e experimenta o ontem distante como se fosse o agora. Falando nisso, acabo de me imaginar brincando de Mega Drive com meus irmãos – “vai, passa de fase. Arrebenta com o Robotinic” rs Como é bom lembrar!
Penso em como eram as janelas de casa. Eram daquelas que se abria para fora. E como sinto saudade da poesia das janelas.
A janela se escancarava convidando a luz para um divertido encontro de amigos, ou a lua e as estrelas para conversarem sobre sonhos que moram no céu . Que bagunça saborosa acontecia ali. Era a minha casa de braços apertos para que o universo a visitasse. Era incrível!!
E no meio de tantas recordações emocionantes e preciosas, quero compartilhar com vocês o quintal da vó áurea.
Lembro-me de muitas histórias com minha vó. Uma mulher que não pôde escolher entre o conforto e a luta. Não pôde optar pela riqueza ou pobreza. Mas que escolheu servir ao Senhor e viver uma vida incrível. Uma caminhada de superação, suor e milagres.
Não foi alfebetizada, mas pelo contato constante com a bíblia aprendeu a ler. E como ela amava ler as escrituras. Uma de suas passagens preferidas era Isaias 60.
Eu amava ir a casa dela (que ficava no fundo da nossa) para bater papo, ouvir estórias e claro, comer feijão com farinha! humm era muito bom! rs
Antes dela falecer de câncer, eu a visitei algumas vezes no hospital. Foi uma fase muito difícil pra mim e muitos amigos me ajudaram a encará-la. Entre eles, o Lucas e a Aline.
Em uma destas visitas, lemos Isaias 60 juntos (ela na verdade recitou de cor) e cantamos hinos do cantor cristão. Jesus estava bem ali, entre um neto com medo e uma vó cheia de fé. Chorei.
No entanto as lembranças mais amigas do meu pensamento, não são as que levam quadros de dor nas mãos. As lembranças que me visitam com mais frequência carregam pitangas, amoras e bananas.
São lembranças que me trazem o cheiro das plantas, o som das risadas, o calor do abraço, a riqueza do olhar, a eternidade da fé, a sinceridade das palavras e a força do amor.
Aquele quintal era um templo ao Senhor. Entre aquelas pequenas árvores, eu testemunhava Deus se revelando na pele frágil dos braços daquela que me carregou no colo como se eu fosse o mais importante menino do planeta.
Tenho saudades. O quintal não existe mais. Quase todas as árvores morreram. Por falta de quem cuidasse delas, as plantas perderam a briga contra o concreto. Não ouço mais aquela voz marcada pelo tempo me chamar para ver que as bananas ja estão ficando maduras. E aí, como estou fazendo agora, eu choro.
No entanto é um choro grato. Grato pelas pitangas e amoras que encontrei no quintal da minha avó áurea.
É incrível como um lugar tão simples tenha influenciado tanto a minha vida. É maravilhoso que uma mulher que não tenha seu nome assinado em calçadas da fama, em tablóides badalados ou livros famosos, possa ter sido tão essencial na construção do que sou. Sempre penso nela e no bem que ela me fez.
Acredite. Se você amar intensamente. Se cuidar daqueles que Deus te concedeu. Se oferecer o seu melhor aos que estão contigo. Se abrir mão de si mesmo e deixar Cristo viver em ti. Qualquer lugar poderá ser um quintal inesquecível. E todos os seus gestos e palavras poderão vencer o amargo das brigas, mentiras e invejas, por meio das pitangas e amoras que estão plantadas dentro do teu coração!
Aprenda com a minha avó áurea. Viva tão intensamente em favor do seus, que o lugar em que está agora se tornará um quintal inesquecível e a sua vida poderá ser um gosto bom na memória das pessoas! Só se marca a vida de alguém, deixando que a vida faça marcas em nós.
Espero que este texto te leve a abraçar tua família de um jeito diferente.
Thiago Grulha




