Archive for abril, 2010


Despedida.

Vim conduzido pela tristeza.
Pensei em calar-me abraçado com o silêncio e na cumplicidade da solidão derramar minhas lágrimas, mas meu coração é quem escolhe onde quer se lamentar e foi aqui que decidiu encarar suas feridas.
Desde muito menino aprendi o gosto bom de fazer amigos. No “prézinho” fazia questão de dividir meu arsenal de lápis de cor e não recusava uma canetinha sequer a quem me pedia socorro.
Apreciava ter acesso as histórias dos que dividiam qualquer espaço comigo.
Minha mãe conta que mesmo eu não tendo ultrapassado os 4 anos de idade, já puxava assunto com os colegas de viagem enquanto era espremido em mais um ônibus lotado.  O resultado era sempre risos e comentários como: “que fofinho este menino”. (nao estou me gabando)
Louvo a Deus por esta Graça de ter recebido uma alma que sabe reconhecer a imensa riqueza de outra (claro, nem sempre).
Por ser assim, conheci muita gente. Pessoas dos mais variados times, estilos, gostos, manias e condutas morais. E meu olhos enxergavam em cada uma delas a beleza da humanidade. A incrível engenhosidade da coroa da criação.
Ainda hoje guardo esta pluralidade em mim. Mantenho os mais distintos vínculos.
É bem verdade que muito da intensidade que caracterizava meus relacionamentos diluiu-se nas agitadas águas das nossas correrias diárias, mas há inúmeras pessoas que acolho na memória e nos sentimentos.
Uma destas pessoas é um colega das antigas.
Lembro-me dele andando de cavalo pelas ruas esburacadas do bairro, ou rindo até não aguentar mais nas engraçadas partidas de futebol. Lembro dele estreiando seu novo corte de cabelo e sua tão cobiçada botinha da Kelf. Ele sempre foi um cara legal e desencanado.
No entanto, o tempo ditou seu ritmo acelerado e muita coisa mudou. Continuei enxergando nele o brilho da imagem do Criador, mas suas atitudes o levavam cada vez mais para uma vida arriscada. E ficamos a cada pôr do sol mais distantes.
Depois dele encarar muitas consequências das escolhas que fez, o reencontrei algumas vezes. 
A simpatia era a mesma e mantinha-se bem humorado, preservando, é claro, o seu jeito boa praça, sem deixar de ser pavio curto.
Dei-lhe um CD de presente. Abracei-o. Cumprimentava-o sempre com muita alegria por vê-lo e dizia-lhe enquanto me afastava: “- Tenho que lhe dar meu outro CD, espero que este você escute de verdade.”, frase que sempre terminava com uma risada contida e um olhar de despedida.
Meu irmão Thales conversava com mais frequencia com ele e muitos diálogos sobre Cristo se realizaram e traziam esperanças e sonhos. 
Ele dizia em alguns momentos ”será que tenho mesmo perdão? Será que Deus realmente me quer?”. Ao que o Thales não deixava de responder com palavras e gestos de verdadeira Graça e Misericórdia.
Sempre pensava nele e por muitas vezes orei para que Deus mudasse o rumo de sua história para que nenhuma colisão fatal ocorresse.
Mas há pouco tive a notícia de que ele morreu. As balas de um revólver qualquer fecharam a capa de mais um livro, deixando muitas páginas por ler.
Estou triste. Meu peito dói e a vontade de chorar se acampou na minha emoção.
Ainda ontem podia vê-lo cumprimentando a galera, brigando no trânsito e perguntando ao Thales “será que as coisas que fiz tem mesmo perdão?”.
Peço a Deus que o Espírito do consolo toque com graça a todos que sofrem ao ver nosso colega partir. Peço a Deus que ensine, aos que ficam, a preciosidade de existir e a missão de aprender o propósito de nossas vidas.
Peço a Jesus que marque-me com Seu amor sem limites. Que no abraço, palavras, canções e encontros, o espírito do evangelho me domine e manifeste-se em mim.
E digo a você com todo o temor que já experimentei em meu ser. Não deixe de brilhar. Seja a luz que acalma e orienta quem seguia cego e desamparado na escuridão. Acredite que acima de qualquer recompensa, nossa maior alegria nasce da certeza de que Deus escreveu nosso nome no livro da vida e tem nos usado para que muitos outros nomes sejam vizinhos dos nossos.
Consagre teus dons, habilidades, recursos e atitudes ao Senhor, para que cada movimento da nossa história seja testemunho do Amor de nosso Pai que está nos céus.

“Senhor, ensina-nos a contar nossos dias para que nosso coração encontre a sabedoria necessária para vivermos de forma a refletirmos Teu Caminho em nossos passos”.

Thiago Grulha 


Digam o que for. Escrevam. Divaguem e divulguem-se. Reúnam-se e estabeleçam a multilação de dogmas e tradições. Vomitem sinceridade ingênua ou convicções amargas. Satirizem o esforço alheio com este confiante deboche de quem discerne todos os mundos. Continuem nas suas batalhas sem tréguas.Mas eu. No alto da minha imbecilidade. Agarrado por dentro por uma idéia tida como irrelevante. Seguindo vozes roucas gritando direções neste labirinto natural. Tateando esperanças no blackout das minhas vergonhas. Eu, na intensidade da rebeldia adolescente, acredito no valor dos encontros.

Eu acredito na ação de Deus em nós enquanto nos amamos. Acredito que Ele explode esconderijos enquanto nos abraçamos. Acredito que Ele nos ajuda a nos enxergar melhor quando posicionamos nossos olhos compassivos na direção do outro. Acredito na sobrenaturalidade do coro de risos. Acredito na cura gerada enquanto partilhamos a dor de nossas feridas. Acredito, ah! e como acredito no enlevo do coração enquanto falamos, cantamos, conversamos, dizemos e gritamos salmos, hinos e cânticos espirituais.
Acredito na mira perfeita da Palavra que limpa tudo ao que verdadeiramente toca.
Acredito que sob a luz amorosa de Cristo, nosso encontro ganhará tons arrebatadores e viveremos o esplendor de estarmos diante daqueles que valeram e valem, por misericórdia, o sangue do Cordeiro.

Preciso renovar minha expectativa. É no encontro que nos descobrimos e nos refazemos.
Quero encontrar-me com ELE, comigo e com o outro, mesmo que tenha que me perder do universo para desvendar este misterioso caminho.

Parafraseando o evangelho -

“Sempre que houver um encontro sincero, verdadeiro, íntegro, pleno e voluntário, Cristo fará questão de se reunir com estes irmãos quebrantados para com eles desfrutar do que é agradável, perfeito e bom”.

Thiago Grulha

 

Powered by WordPress.