Claudinho e Bochecha…

Dificilmente escrevo dois “posts” em um período curto.
Isto não se dá por falta de tempo, tema ou interesse. Muito menos por alguma estratégia de manutenção deste espaço. A razão é muito mais simples.
Eu não escrevo como quem lança baldes para o coração de um profundo poço e de lá retira o alívio para sede. Não, pensando bem, há sim momentos em que esta imagem define minha experiência com a criação de um texto, mas normalmente não é assim.
Escrevo por não ter escolha. É um “transbordamento”.
Sou tomado por alguma imagem, palavra, som, história ou qualquer outra beleza da vida. E então meu espírito é visitado de tal forma pela erupção dos sentimentos que tudo o que sou entra em um estado de enlevo e já não consigo manter isso dentro de mim.
Esta experiência arrebatadora não é familiar, comum ou corriqueira. São como assombros inexplicáveis. São mistérios. Não os conheço pelo nome, logo não posso convocá-los ou convidá-los, eles apenas surgem e abraçam-me.
Eles gostam de me fazer esperar. Entre um encontro e outro a ponte que os liga é feita de tempo vagaroso.
Entretanto, hoje ouvi mãos sagradas batarem na porta. Aqueles passos alegres foram percebidos por meus ouvidos supresos e gratos. O mistério voltou e tocou-me.
Não, eu não estava ouvindo um sermão do pastor Éd Rene. Também não foi enquanto lia páginas de um livro espetacular. Melhor pararem de arriscar palpites, pois não acertarão.
Sentado no sofá laranja da sala aqui de casa, assisti o documentário sobre o Claudinho e Bochecha. Sim, isso mesmo! Foi assim que o mistério me visitou.
Recordei minha adolescência.
Como será que eu conseguia caminhar com aquelas calças tão largas? E eu realmente achava que camisetas gigantes ficavam bem em mim? Que saudade destas loucuras rs
Foi a época em que mais ouvi música. Durmia com o radinho ligado e gravava os programas de rádio em fitas para poder escutar novamente os hits que mexiam comigo.
Era um tempo em que sonhos explodiam como fogos em minha alma. Não havia perigos que me impedissem de tentar mais uma vez.
E a timidez?
Me lembro de uma vez em que arrumei um óculos de sol que logo passou a fazer parte do meu figurino “moderno” rs. Tomei um banho demorado. Passei loção pós barba, mesmo sem ter feito a barba, porque eu não tinha barba rs. Espirrei litros do perfume Biografia do meu pai no pescoço e debaixo do braço (ardeu rs). E segui meu caminho em direção ao palco das minhas maiores emoções – a escola Armando Cridey Righetti.
Estava preparado para conquistar. Imaginava o que aconteceria em todos os lugares por onde eu passasse.
As garotas parariam de conversar e, com os olhos reluzentes, comentariam sobre o garoto moreninho da rua da bicicletaria. As turminhas se desfariam apenas para me cumprimentar. Os maiorais iriam me chamar para fazer parte do time principal da escola e eu iria escolher o número da minha camiseta. Eu quase podia ouvir a arquibancada gritando – “Thiaquinho! Thiaguinho! Thiaguinho!”
Mas quando dobrei a esquina o medo me fez tirar os óculos e apenas aceitar que eu era somente um aluno da quinta série, se achando adulto porque agora estudaria das 15:00 ás 19:00 horas, ou seja, no mesmo horário das sextas, sétimas e oitavas e que tinha muito receio de não fazer novos amigos e de deixar meu caminho ser uma linha tão fina que o mais suave sopro da vida apagasse minha desengonçada trilha.
Quanta coisa marcante coube na minha adolescência!
Em um dos muitos festivais escolares, eu e meu amigo césinha nos tornamos a dupla Claudinho e Bochecha. Eu era o Bochecha rs
Coloquei boininha, ensaiei os passos e treinei bem a dancinha engraçada rs O som rolava e a gente fazia de conta que o mundo tinha parado para nos ver. Como a gente queria ser notado, querido e aplaudido.
E quando penso na morte do claudinho, penso um pouco na minha morte.
Não a morte definitiva. Não aquela que me impedirá de contar mais uma piada sem graça ou de trancar novamente minha mãe no quarto e só jogar a chave pela janela depois dela rir e pedir muito para sair de lá.
Mas a morte das fases.
Já não sou mais adolescente. Este tempo escorreu pelos meus dedos e não sobrou nenhum pouquinho desta areia cheia de força. E olha que cheguei a procurar até nos cantinhos das unhas.
Já não sinto as mesmas inseguranças enquanto refaço o caminho de minha casa até a escola. Já não há mais as conversas sem pé nem cabeça no portão azul da entrada do colégio. Já não tinjo o cabelo de azul e não tenho mais vontade de usar um brinco de pressão rs. Já não lavo o rosto com pressa para pegar a bola da penalti debaixo da cama do meu irmão para ficar chutando-a no portão. E não pergunto mais para a coordenadora Cecília – “quando vai ter outra excursão para o Sesc itaquera? rsrs”
Mas quando escuto Claudinho e Bochecha sinto o passado despertar e bocejar alto no meu ouvido.
Algo muito forte me arremessa para tão alto e tão longe que sobrevôo minha própria história e lá de cima consigo me ver abrindo o portão de casa, com mais sonhos no coração do que pelos no rosto, segurando minha bolsa nova nas mãos e com os óculos escuros escondendo meus olhos medrosos.
Sei que muitas das canções destes funkeiros divertidos não são profundas, poéticas ou sagradas. Algumas até destoam do que cremos e queremos viver. Mas a verdade é que o mistério tocou-me. Despertou minha vontade de rir com aquela leveza de moleque.
Eu chorei de emoção e orei a Deus.
Vivamos uma vida de amor. “só love, só love.”…

Sei que escrevi muito, mas agradeço aos que leram até o final, ou até mesmo aos que resistiram até o meio do caminho. Obrigado!

Thiago Grulha

Te amo JESUS!!