Vim conduzido pela tristeza.
Pensei em calar-me abraçado com o silêncio e na cumplicidade da solidão derramar minhas lágrimas, mas meu coração é quem escolhe onde quer se lamentar e foi aqui que decidiu encarar suas feridas.
Desde muito menino aprendi o gosto bom de fazer amigos. No “prézinho” fazia questão de dividir meu arsenal de lápis de cor e não recusava uma canetinha sequer a quem me pedia socorro.
Apreciava ter acesso as histórias dos que dividiam qualquer espaço comigo.
Minha mãe conta que mesmo eu não tendo ultrapassado os 4 anos de idade, já puxava assunto com os colegas de viagem enquanto era espremido em mais um ônibus lotado.  O resultado era sempre risos e comentários como: “que fofinho este menino”. (nao estou me gabando)
Louvo a Deus por esta Graça de ter recebido uma alma que sabe reconhecer a imensa riqueza de outra (claro, nem sempre).
Por ser assim, conheci muita gente. Pessoas dos mais variados times, estilos, gostos, manias e condutas morais. E meu olhos enxergavam em cada uma delas a beleza da humanidade. A incrível engenhosidade da coroa da criação.
Ainda hoje guardo esta pluralidade em mim. Mantenho os mais distintos vínculos.
É bem verdade que muito da intensidade que caracterizava meus relacionamentos diluiu-se nas agitadas águas das nossas correrias diárias, mas há inúmeras pessoas que acolho na memória e nos sentimentos.
Uma destas pessoas é um colega das antigas.
Lembro-me dele andando de cavalo pelas ruas esburacadas do bairro, ou rindo até não aguentar mais nas engraçadas partidas de futebol. Lembro dele estreiando seu novo corte de cabelo e sua tão cobiçada botinha da Kelf. Ele sempre foi um cara legal e desencanado.
No entanto, o tempo ditou seu ritmo acelerado e muita coisa mudou. Continuei enxergando nele o brilho da imagem do Criador, mas suas atitudes o levavam cada vez mais para uma vida arriscada. E ficamos a cada pôr do sol mais distantes.
Depois dele encarar muitas consequências das escolhas que fez, o reencontrei algumas vezes. 
A simpatia era a mesma e mantinha-se bem humorado, preservando, é claro, o seu jeito boa praça, sem deixar de ser pavio curto.
Dei-lhe um CD de presente. Abracei-o. Cumprimentava-o sempre com muita alegria por vê-lo e dizia-lhe enquanto me afastava: “- Tenho que lhe dar meu outro CD, espero que este você escute de verdade.”, frase que sempre terminava com uma risada contida e um olhar de despedida.
Meu irmão Thales conversava com mais frequencia com ele e muitos diálogos sobre Cristo se realizaram e traziam esperanças e sonhos. 
Ele dizia em alguns momentos ”será que tenho mesmo perdão? Será que Deus realmente me quer?”. Ao que o Thales não deixava de responder com palavras e gestos de verdadeira Graça e Misericórdia.
Sempre pensava nele e por muitas vezes orei para que Deus mudasse o rumo de sua história para que nenhuma colisão fatal ocorresse.
Mas há pouco tive a notícia de que ele morreu. As balas de um revólver qualquer fecharam a capa de mais um livro, deixando muitas páginas por ler.
Estou triste. Meu peito dói e a vontade de chorar se acampou na minha emoção.
Ainda ontem podia vê-lo cumprimentando a galera, brigando no trânsito e perguntando ao Thales “será que as coisas que fiz tem mesmo perdão?”.
Peço a Deus que o Espírito do consolo toque com graça a todos que sofrem ao ver nosso colega partir. Peço a Deus que ensine, aos que ficam, a preciosidade de existir e a missão de aprender o propósito de nossas vidas.
Peço a Jesus que marque-me com Seu amor sem limites. Que no abraço, palavras, canções e encontros, o espírito do evangelho me domine e manifeste-se em mim.
E digo a você com todo o temor que já experimentei em meu ser. Não deixe de brilhar. Seja a luz que acalma e orienta quem seguia cego e desamparado na escuridão. Acredite que acima de qualquer recompensa, nossa maior alegria nasce da certeza de que Deus escreveu nosso nome no livro da vida e tem nos usado para que muitos outros nomes sejam vizinhos dos nossos.
Consagre teus dons, habilidades, recursos e atitudes ao Senhor, para que cada movimento da nossa história seja testemunho do Amor de nosso Pai que está nos céus.

“Senhor, ensina-nos a contar nossos dias para que nosso coração encontre a sabedoria necessária para vivermos de forma a refletirmos Teu Caminho em nossos passos”.

Thiago Grulha